Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

Carlos Martins: o jazz como referência recorrente (1)

                                               

 

 (1)  (Texto para a Folha de Sala do Concerto da Culturgest, de 12.02.10, MJV)

 

Ser músico de jazz é ter confiança no acaso. É aceitar a disciplina necessária para manusear o instrumento como se domina uma linguagem. É acreditar no erro como fonte de inspiração. É compreender o outro e aceitá-lo. (…)

(Carlos Martins)
 

Uma característica merecedora de relevo e constituindo já tradição na temporada anual de jazz integrada na programação cultural mais geral da Culturgest é a presença regular do jazz português e seus compositores e intérpretes mais destacados.  É portanto natural que, mais uma vez em 2010, essa tradição seja prosseguida fazendo desta vez inserir, no conjunto de concertos dedicados a este domínio musical e liderando os seus grupos respectivos, dois valores há muito firmados na nossa cena jazzística mas pertencentes a gerações afastadas entre si e a momentos diversos, mas relevantes, da evolução do jazz entre nós:  Carlos Martins e Nelson Cascais.

 

Decidiu a disponibilidade do calendário que, nesta série de concertos, o primeiro desses valores a subir ao palco à frente do seu quinteto fosse um pioneiro:  o saxofonista Carlos Martins, músico já veterano e de longa carreira, cujo início marcou e coincidiu com a entrada em cena dos primeiros músicos de jazz portugueses profissionais, ou seja, daqueles que  (independentemente da sua participação mais ou menos episódica em outros domínios musicais)  fizeram da prática do jazz, enquanto instrumentistas e/ou como docentes, não um simples hobby mas uma ocupação regular e quase exclusiva.

 

Nascido em 1961 em Etiópia (Alentejo), o facto de ter passado os seus verdes anos afastado dos grandes centros populacionais proporcionou-lhe, como a outros jovens da sua geração, a oportunidade de se iniciar em música numa filarmónica  – na circunstância a Banda Filarmónica de Grândola –  ainda hoje, como então, um tipo de associações culturais privilegiadas  (e em alguns casos únicas)  para o ensaio dos primeiros passos na aprendizagem amadora da música.

 

Chegado, anos depois, à grande cidade, Carlos Martins logo teve a oportunidade de dar continuidade à sua paixão pela música e de aprofundar no Conservatório Nacional de Lisboa os seus primeiros estudos académicos no instrumento que escolhera  (o saxofone)  a par do curso de Composição.  E foi já armado desses conhecimentos musicais de base que ingressaria na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal  (criada em 1979),  primeiro como aluno e mais tarde como docente.

 

Em bom rigor e considerando o surgimento, poucos anos antes, de músicos como Rão Kyao ou António Pinho Vargas, Carlos Martins vem assim engrossar e enriquecer uma segunda vaga de músicos que sucederam àqueles e também enveredaram pelo profissionalismo, juntando-se a outros seus contemporâneos como Zé Eduardo, Tomás Pimentel, Jorge Reis, Edgar Caramelo, Maria João, Maria Viana, Mário Laginha, Pedro ou Mário Barreiros, para apenas referir os mais activos e dinâmicos na cena jazzística portuguesa de então.

 

Uma característica comum a estes e outros músicos e que se tornou, por exemplo no campo da composição, uma verdadeira viragem no jazz português, coincide com o movimento mais geral verificado na Europa de um progressivo afastamento do jazz norte-americano, não necessariamente através de uma sistemática ou generalizada ruptura com traços essenciais da tradição jazzística, tal como esta se afirmava ainda enquanto grande modelo de referência, mas sobretudo através da criação de um novo repertório, pelo afastamento progressivo do culto quase exclusivo dos chamados standards e pela criação de obras próprias, tendência que veio a reforçar-se desde então e a tornar-se uma regra.

 

Entretanto, no caso de Carlos Martins, uma característica que desde logo abriu os seus horizontes musicais foi a apetência, revelada desde cedo, para associar ao jazz outros interesses e outras actividades performativas como aquelas que o relacionam com os domínios da música erudita ou da dança  – nas suas colaborações com Constança Capdeville, Álvaro Salazar, João Paulo Santos, Rui Horta, Vera Mantero –  ou os domínios do teatro e do cinema e, em geral, da música de cena.

 

Por outro lado, um aspecto singular que já distingue de certo modo Carlos Martins dos seus contemporâneos, é uma crescente aproximação e apego pela música popular portuguesa  –  a exemplo do que acontecia no seio de outros movimentos jazzísticos de países mediterrânicos, como a Itália.  Mais ainda, a presença e a prática musical, no meio português, de músicos e artistas originários das nossas ex-colónias, alargam aquele seu seu interesse ao conceito de “lusofonia”, sendo várias e notórias as expressões musicais do saxofonista e compositor nesta via, traduzida com maior ou menor veemência na sua própria discografia, em particular Caminho Longe (1998) ou Sempre (1999).

 

 

Regressando ao concerto desta noite, diga-se, desde já, que parte substancial do repertório que iremos ouvir  – eventualmente alargado a outras peças novas a estrear em público –  está intimamente relacionado com o mais recente disco, Água, lançado por Carlos Martins em 2009.  Embora não abandonado a já referida ligação à música portuguesa  – presente, por exemplo, de forma mais ou menos explícita, em Água  (que dá o título ao disco),  em O Sol Verde das Searas ou nas reiteradas citações de Azul Mediterrâneo –  julgo poder afirmar que esta nova obra discográfica reconduz mais claramente Carlos Martins ao terreno que sempre foi o da sua origem:  o jazz.

 

Por um lado, o tipo de instrumentação clássica do quinteto que Carlos Martins traz consigo ajuda a aprofundar essa vertente estética, muito embora seja de notar a especial sensibilidade da maioria dos seus companheiros para a prática de “outras músicas”, para utilizar um termo consagrado em diverso contexto.  Mas a própria concepção do disco  – que certamente se reflectirá na temática do concerto –  aponta para que voltemos a apreciar Carlos Martins como músico de jazz, por assim dizer mais “puro”  (passe a expressão!),  daqui decorrendo a necessidade de sublinhar uma nova evolução na sua concepção musical e no seu estilo instrumental.

 

Ao nível da composição, várias das suas novas peças, continuando nalguns casos (Bô Ta Buli, Espiral Vertiginosa, Benji)  a privilegiar uma configuração melódica bastante sinuosa e movediça, são formuladas  (pela arquitectura dos arranjos e pelas associações instrumentais escolhidas)  de um novo modo e, sobretudo, tendo como pano de fundo um ambiente emocional bastante diverso.

 

Sendo certo que ainda se notam, aqui e ali, como seria natural, as influências iniciais e já longínquas de um mestre como John Coltrane, por vezes via Charles Lloyd, sobretudo na sua vertente “modal”, a verdade é que as impetuosas torrentes de notas de outrora dão agora lugar, as mais das vezes, a um fraseado controlado em alto grau, dir-se-ia  (como já escrevi)  pensado em função do valor de cada nota. Além do mais, o apuradíssimo cuidado no tratamento da matéria sonora, da qual está com frequência ausente o vibrato, a utilização adequada dos harmónicos e o tratamento por igual dos vários registos do instrumento  – na linha de outros saxofonistas de referência mais actuais –  influenciam e determinam a própria exposição, mais linear e menos fragmentada, do seu discurso melódico e improvisativo, uma tendência que se vem aprofundando na última meia dúzia de anos.

 

Claro que, como música de invenção individual e colectiva, a própria criatividade do novo jazz de Carlos Martins é estimulada pelos músicos de excelência que aquele escolheu para estarem a seu lado, como é patente na intensa e ágil interacção de O Princípio (Bernardo Sassetti).  Com efeito, o enriquecimento tímbrico e as insinuações rítmicas de André Fernandes, a regularidade pendular e o som amplo de Nelson Cascais, as subtilezas polirítmicas de Alexandre Frazão ou a imparável musicalidade, capacidade de viragem de rumo e riqueza harmónica de Bernardo Sassetti, são contributos decisivos para a formação de um todo ao mesmo tempo coeso, díspar, homogéneo e versátil, como deve ser sempre o bom jazz.

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Fotos captadas durante o ensaio de sound check

(Cortesia:  Rosa Reis)

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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:57
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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

"Um Toque de Jazz" em Fevereiro

 

 

Publicada aqui a notícia com uma semana de atraso (!), do qual o escriba se penitencia, prossegue em Um Toque de Jazz a transmissão de importantes concertos internacionais realizados nos mais prestigiados clubes e salas de concerto da Europa.

Este mês, para além de estarem em foco concertos por duas destacadas big bands europeias  – a holandesa Metropole Orchestra dirigida por Vince Mendoza com o convidado John Scofield (EUA)  e a Orquestra da Rádio Norueguesa dirigida pelo britânico Django Bates –  sobressairá ainda a actuação da mais desconhecida Bohuslän Big Band (Suécia)  que tocará arranjos do grande Gil Evans.

Entretanto, outro motivos de interesse do programa serão, por exemplo, as duas homenagens a Albert Ayler e Lee Morgan bem como a actuação de dois quartetos liderados por conhecidos músicos de jazz franceses:  Daniel Humair e Michel Portal.

Um Toque de Jazz é transmitido aos Domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2 podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui via webcast.  Após a sua transmissão, os programas passam a estar disponíveis, também via Internet, napágina de arquivos multimédia da Antena 2 ou regressando a esta página para clicar em ouvir aqui, nas datas das respectivas emissões.

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Domingo, 07.02.10 – Concertos Internacionais (6):  A Metropole Orchestra (Holanda), sob a direcção de Vince Mendoza com o convidado especial John Scofield em 17.02.06 no Muziekgebouw de Amesterdão;  e o Quarteto de Petter Wettre (Noruega) com a Orquestra da Rádio Norueguesa, sob a direcção de Django Bates, em 27.02.09, no Festival de Jazz de Tubaloon (Kongsberg). Gravações Eurorádio.

(Ouvir aqui)

Domingo, 14.02.10 Concertos Internacionais (7):  “Tributo a Lee Morgan”, pelo sexteto de Kenyatta Beasley (trompete), Howard Johnson (tuba), Billy Harper (sax-tenor), Boris Netsveatev (piano), Philipp Steen (contrabaixo) e Kay Bussenius (bateria) em 13.11.08 nos estúdios Rolf Liebermann da NDR (Hamburgo); e “Tributo a Albert Ayler”, pelo quarteto de Roy Campbell (trompete), Joe McPhee (sax-tenor), William Parker (contrabaixo) e Warren Smith (bateria) em 12.11.08 no Teatro Municipal de Nevers (França).  Gravações Eurorádio.

(Ouvir aqui)

Domingo, 21.02.10 – Concertos Internacionais (8): O Trio de Daniel Humair (bateria), Joachim Kühn (piano) e Tony Malaby (sax-tenor) (FRA/ALE/EUA) em 07.11.08 no Teatro Maillon-Wacken (Estrasburgo);  e o Quarteto de Michel Portal (saxofones, clarinetes), Yaron Herman (piano), Bruno Chevillon (contrabaixo) e Éric Échampard (bateria) em 02.11.08 na Old Customs House de Tampere (Finlândia).  Gravações Eurorádio.

(Ouvir aqui)

 

 

 

 

 

 

Domingo, 28.02.10 – Concertos Internacionais (9): O Quarteto de David Sánchez (Porto Rico) com Lage Lund (guitarra), Orlando LeFleming (contrabaixo) e Henry Cole (bateria) em 04.07.08 nas Ruínas dos Claustros de Eldena (Mecklenburg, Alemanha);  e a Bohuslän Big Band (Suécia) sob a direcção de Nils Landgren tocando arranjos de Gil Evans em 18.09.08 nos Estúdios Rolf Liebermann da NDR (Hamburgo).  Gravações Eurorádio.

(Ouvir aqui)

 

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:14
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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

Gerald Clayton, ao vivo, no Village Vanguard!

 

 

Descubra ao vivo e em directo os talentos de Gerald Clayton, um jovem pianista que está a dar que falar, durante a sua actuação, na próxima madrugada, a partir das 2 da manhã, no clube Village Vanguard de Nova Iorque.

 

 

Se não poder estar acordado, então pode no mesmo sítio ouvir  (e ver em video webcast)  a partir de amanhã  (5ª. feira, 11)  a gravação dessa actuação, na qual o trio de Gerald Clayton é ainda formado por Joe Sanders  (contrabaixo)  e Justin Brown (bateria).

 

Actualização (12.02.10): clique no leitor áudio aqui em baixo e ouça o concerto... Se estiver interessado, pode também ler aqui a crítica de Ben Ratliff publicada anteontem (10.02.10) no NYT.

 

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 17:57
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Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Festival de Jazz de Newport, 50 anos depois (4)

 

 

Este é o quarto de uma série de concertos já aqui iniciada anteriormente, todos eles provenientes do Festival de Jazz de Newport de 1959.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desta feita, estará em palco Thelonius Monk, um mestre único do jazz moderno, na actuação de 07.03.59 com o companheiro de sempre Charlie Rouse (sax-tenor) e ainda Sam Jones (contrabaixo) e Art Taylor (bateria).

 

 

Como sabe, pode ler aqui várias notas sobre Monk e este concerto, bem como fazer download desta gravação em ficheiros do formato MP3 ou FLAC, para mais tarde recordar.

 

O alinhamento do concerto é como segue:

 

 

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:24
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Pouco depois de jantar, ouvindo Bollani, Bodilsen e Lund

[Texto para a Folha de Sala da Culturgest(1)

 

 

Quem já conheça o Stefano Bollani de tantos outros projectos individuais e colectivos bem diversos entre si, como I Visionari, Bollani Carioca ou JazzFriends for Emergency, sem dúvida ficará surpreso perante a música que o grande pianista transalpino nos vai oferecer no seu concerto desta noite, certamente muito próxima de Stone in the Water, o seu último opus discográfico (gravado há apenas quatro meses para a ECM com o mesmo “trio dinamarquês”) e igualmente vizinha de outros discos gravados em solo absoluto ou em duo e quinteto ao lado de Enrico Rava, seu decisivo mentor, para além do pianista Franco d’Andrea que o orientou em vários seminários. Ou não estivessem aqueles também mergulhados na especial atmosfera das gravações da editora de Manfred Eicher e deles não transparecesse, nomeadamente, um particular cuidado na captação cristalina do piano e restantes instrumentos.

 

O certo é que dificilmente associaríamos este jazz pleno de tranquila emotividade e contida força expressiva ao Stefano Bollani altamente extrovertido e mesmo pleno de humor de outros contextos:  o humor e a natural comunicabilidade que, afinal, com frequência, costumamos associar aos  (tantas vezes) desconcertantes músicos de jazz italianos.

 

Entretanto, o facto é que o novo disco deste trio de Stefano Bollani vai no mesmo sentido dos anteriores CDs que o pianista gravou para a editora dinamarquesa Stunt com Jesper Bodilsen (contrabaixo) e Morten Lund (bateria), um trio que já se assumiu como um colectivo com identidade própria, onde todos sabem ouvir-se até nas mais requintadas pausas e silêncios de uma música que flui, na realidade, como “as águas sobre as pedras”, para adoptar o oportuno jogo de palavras inventado por Colin Buttimer na sua crítica para a BBC a Stone in the Water.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(foto Rosa Reis, durante o sound check)

 

Trazido para o jazz pela mão de Enrico Rava que, em 1996, o desafiou a fazer parte do seu grupo para algumas actuações em Paris, Bollani ter-se-á então revelado aos outros  (e sobretudo a si próprio!)  como um “possível” músico de jazz, ele que tanto já vagueara pelos mundos da música popular de alguns dos mais sonantes nomes da canzonetta italiana.

 

Poucos anos depois, em 2002, foi a circunstância de a organização dinamarqueza do célebre JazzPardesse ano ter convidado Jesper Bodilsen e Morten Lund para completarem, com Stefano Bollani, a secção rítmica do quinteto de Enrico Rava, então premiado, que levou os três músicos a conhecerem-se pela primeira vez, logo tendo descoberto afinidades geracionais, caminhos comuns e vias confluentes que lhes terão tornado mais fácil e natural a aventura de constituir um trio à parte que, desde essa data, tem actuado como tal um pouco por todo o lado e, por sinal, com grande êxito.

 

É certamente uma feliz ventura que a cultura musical e jazzística dos três componentes do trio lhes permita explorar caminhos criativos de características muito diferenciadas, desde o repertório transformador das raízes nórdicas ou italianas com que deparamos nos seus dois primeiros discos para a Stunt às mais abrangentes e multifacetadas páginas musicais que constituem o novo Stone in the Water.

 

 

Stefano Bollani, Jesper Bodilsen, Morten Lund

(foto Rosa Reis, durante o sound check)
 

Em termos puramente instrumentais, Jesper Bodilsen pertence à gloriosa tradição escolástica nórdica, simultaneamente rotundo e sonoro nos graves que guiam o andamento do tempo que o seu contrabaixo determina como tecnicamente ágil e imaginativo no desdobramento dos acordes da harmonia nas regiões mais centrais e agudas do instrumento.

 

Pelo seu lado, Morten Lund, neste contexto musical, prefere a utilização sofisticada das vassouras ao embate mais incisivo das baquetas:  mas independentemente da escolha, sempre acertada, que faça dos seus dispositivos percussivos  (indo até à utilização das próprias mãos),  mostra ser um claro adepto dos jogos e cadências rítmicas mais implícitas e induzidas nos espaços deixados livres pelos seus pares do que pleonásticos e redundantes na justaposição de marcações e acentuações tornadas supérfluas, porque já interiorizadas pelo trio e portanto devolvidas de uma ou outra forma ao ouvinte.

 

Quanto a Stefano Bollani, independentemente das virtudes da técnica apurada, de que apenas faz uso quando estritamente esta contribui para o reforço e justeza do bom gosto de tal ou tal passagem, ele exibe a todo o momento  (jamais a impondo)  uma imaginação melódica e uma sensibilidade harmónica que tornam inteiramente novo aquilo que poderia ser-nos perventura familiar, jamais assim cedendo à preguiça da frase feita ou do cliché vazio de sentido.

 

Se os três talentosos músicos decidirem em pleno palco seguir de perto o line up de Stone in the Water  – e pesem embora as situações totalmente diversas do isolamento em estúdio e da comunhão e partilha numa sala de concerto, certamente repleta –  é muito provável que o leitor–espectador venha a ser positivamente bafejado, como o autor destas linhas, pela beleza radiosa de Dom de iludir  (Caetano Veloso)  ou Brigas nunca mais  (António Carlos Jobim), aqui representando a descoberta apaixonada da grande música brasileira por parte de Bollani.  Mas será arrastado pelas incisivas e nervosas torrentes de notas de Il cervello del pavoneou pela intensa e movimentada vertigem de Un sasso nello stagno  (ambas de Bollani),  embora a segunda enunciada de início de forma singela e quase imperceptível.  E inclinar-se-á perante a beleza indelével de Orvieto ou Edith  (Bodilsen),  a primeira aproximando-se da impetuosidade de Jarrett e a segunda da matriz inconfundível de Strayhorn, ou deixar-se-á mergulhar no impressionismo de Improvisation 13 en la mineur  (Poulenc).

 

Entretanto, não vá o diabo tecê-las!, tudo poderá ser afinal diferente, para tal bastando a forma como “caiu” o jantar aos músicos…

___________________________________________

(1)

       Stefano Bollani  -  piano

       Jesper Bodilsen  -  contrabaixo

       Morten Lund  -  bateria

 

      (Grande Auditório Culturgest, 10.01.10)

 


 

 

 

 

 

 

Atenção:  Já se encontra online o segundo número  (Fevereiro)  de Jazz 6/4, com críticas a discos recentes

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:01
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